José Lino Souza Barros

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A morte do cisne

De Nelson Rodrigues

24/10/2020 às 01:26
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Mexendo com a colher na taça vazia do sorvete, ele suspirou:
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro!
Hesitou, num último escrúpulo. Haroldo animou-a: "Fala." Esmeralda decidiu-se:
— Bem. O caso é o seguinte: eu sou de cor e você é branco. Eu queria que você me explicasse por que preferiu a mim, com tanta mocinha branca e bonita dando sopa?
Atrapalhou-se:
— Por quê?
E ela, doce, mas tenaz:
— Por quê?
Para ganhar tempo, Haroldo catava, nos bolsos, fósforos e cigarros. Sua resposta foi a mais hábil possível:
— Eu gostei de você assim como você gostou de mim, ora, bolas! — animado com o argumento, prosseguiu: — O mesmo direito que tem uma preta de gostar de um branco, tem um branco de gostar de uma preta. Não lhe parece?
Por um momento, Esmeralda não soube o que dizer. O fato é que o raciocínio do rapaz a confundiu. Haroldo prosseguia:
— E, além disso, meu anjo, esse negócio de preto, de branco, não significa nada. — Pausa e baixa a voz, na confidência extrema: — Eu sempre gostei de mulher de cor, sob a minha palavra de honra! Esmeralda suspirou:
— Eu também sempre gostei de homem branco!

Amor

Nem um nem outro mentiam. A verdade é que, sempre, sempre, ela criara, para si, o sonho de um casamento com branco. Ao próprio Haroldo, dizia: “Eu era menina garotíssima e só pensava nisso. Aos 12 anos, surpreendia, em casa, ao anunciar":
— Ou me caso com branco ou não me caso nunca!
Era uma menina de caráter, de vontade. O pai, que ganhava muito bem, era, fisicamente, uma figura de chamar atenção. Forte, alto, um peito amplo, uma voz de barítono. Gostava da filha única, com um desses afetos tranquilos, estáveis, definitivos. Subgerente numa firma importadora, dera à garota a melhor educação possível. Esmeralda sabia francês, tocava piano e acabava de se formar professora. Conhecia Haroldo, de vista, há muito tempo. Tudo, nele, a encantava, desde a aparência física até o fato de trabalhar no Itamaraty. De resto, era de uma família grã-finíssima, rica. Durante alguns meses, a garota olhou, só, à distância. Teve a vaidade, o deleite de um amor impossível. De repente, sentiu-se olhada também. E, uma tarde, na rua, ela vê um automóvel encostar. Recebe o convite:
— Quer dar uma voltinha?
Era ele, no seu espetacular carro esportivo. Deixou-se levar. Durante o passeio, que se alongou por duas horas, Esmeralda teve, de uma maneira contínua uma sensação de irrealidade profunda. Haroldo não se antecipou. Foi de uma correção, de um tato, de uma cerimônia e de uma ternura insuperáveis. Mais tarde, já em casa, no quarto, tirando a roupa diante do espelho, ela pensava. "Tem que ser meu marido de qualquer maneira”. No quinto ou sexto encontro é que houve o primeiro beijo. Foi uma dessas coisas loucas que uma mulher não esquece.

Surpresa

No fim de um mês avisou em casa:
— Mamãe, eu estou namorando, mamãe.
A velha espiou por cima dos óculos.
— Branco?
— Evidente!
— Veja lá, minha filha, veja lá!
Respondeu:
— Não há perigo, mamãe.
Mas quando a santa senhora soube que se tratava de Haroldo, ou seja, de um grã-fino, neto de barões, pôs as mãos na cabeça: "Não vai dar certo! Olha o que eu estou te avisando”. Vamos e venhamos: a velha teria suas razões. Havia, de fato, entre os dois, não sei quantos abismos, não sei quantas incompatibilidades de cor, fortuna e educação. A filha parecia segura de si e do rapaz:
— Mamãe, a mim ninguém faz de trouxa!
No dia seguinte, os dois se encontram. Como sempre fazia, ele para a estradas vazias. A seu lado, ela ria. Subitamente, séria, diz: — Você tem vergonha de mim?
— Eu?
— Tem?
— Que bobagem?
— Responda!
Pigarreou:
— Claro que não! Vergonha por quê, ora essa?
— Tem, sim. E confesse. Quando eu entro no seu automóvel, você já sabe: chispa para lugares desertos, com medo dos conhecidos. É ou não é?
Tratou de ser veemente para disfarçar a própria confusão. Vermelho, protestava. “Ora, Esmeralda! Eu idéia você faz de mim? Pelo amor de Deus!” Estavam parados na dobra da estrada e Esmeralda achou que era chegado o grande momento. Dissimulando a própria angústia, começa: “Acredito. E agora diz só uma coisa”.Pausa e, sem desfitá-lo, pergunta:
— Você se casaria comigo?
— Por quê?
— Sim ou não?
Gaguejou:
— Mas isso não é assim, que diabo! Calma!
Ela exaltou-se:
— Isto não é resposta. Ou você pensa, talvez, que eu sou alguma criança? Quero que você me responda.
Coçou a cabeça:
— Você me dá 24 horas para uma resposta?

A resposta

Ela não dormiu direito. Sentia um tal mal-estar que fez seus cálculos: "Devo estar com febre!" Encontraram-se na tarde seguinte. Na sua impaciência. Esmeralda pedia: "Fala, anda!" Então, com surdo sofrimento, ele fez uma confissão total: "Sou louco por você, tarado, compreendeu? Você é tudo para mim, tudo!" Ao lado, de braços cruzados, ela balbuciou: “Continua!" E o rapaz:
— Eu me casaria contigo 250 vezes, se... — pigarreia, continuando: — Mas é o seguinte: minha mãe é doente, sofre do coração... se eu me casasse com você, eu tenho certeza de que ela, quando soubesse, ia ter um colapso... Compreendeu?
Encarou-o:
— Isso quer dizer que você não casa? É isso?
Tomou entre as suas as mãos da garota: "Quero que você compreenda! Meus parentes não aceitariam, não topariam... Seria um escândalo pavoroso..." Ela não abria a boca, num desabamento interior irremediável. Por fim, veio o golpe de misericórdia. Em voz baixa, Haroldo conclui: — Sou noivo. Você sabia que eu sou noivo?
— Noivo?
— Pois é.
Esmeralda teve dois impulsos, simultâneos e contraditórios: fugir e ficar. O fato é que essa desconhecida e inesperada rival despertou nela sofrida e minuciosa curiosidade. Ficou para saber como era ela e o crivou de perguntas. Soube, assim, que era muito clara, tinha olhos verdes e era de uma beleza doce e frágil. Quando Haroldo acabou, Esmeralda virou-se:
— Olha: você não tocará em mim enquanto ela for viva!

Substituição

Não se viram mais. Mas ele não a esquecia. Dia e noite, mesmo junto da noiva, ele experimentava uma aguda nostalgia da moça de cor. E quando beijava a grã-fina, era em Esmeralda que pensava. Passa-se o tempo, até que chega o dia do casamento. O pai de Haroldo comprara uma casa de paredes brancas e janelas azuis, escondida num ermo, secreta e nupcial. Da igreja, e ainda de noiva, os dois partiram para a nova residência. Teriam a noite livre, já que a empregara só viria de manhã. Chegam diante da casa, caminham, de braços dados. Na sua graça lânguida e meio enjoativa, a garota suspira. Então na varanda, Haroldo coloca a chave na fechadura. A moça diz, num arrepio:
— Quero que você me carregue no colo.
E, súbito, enquanto o noivo torce a chave, na fechadura, alguém vem por trás da noiva, sem rumor, e... Não houve grito, mas apenas um suspiro. Volta-se Haroldo, espantado. Diante dele, está Esmeralda. Esperava os noivos, na sombra; crava na moça, pelas costas, um punhal fino e longo, de penetração macia, quase indolor. De momento, o que ocorreu a Haroldo foi uma comparação de uma cena de balé: no prodigioso vestido branco, a noiva caía sobre si mesma, como numa morte de cisne. Então, fora de si, ele investe sobre a assassina. Agarra-a e como um possesso, beija-a. Quando se desprenderam, ela pede:
— Leva-me no teu colo!
Ele obedeceu. Alucinado, doente de nostalgia, carregou Esmeralda. Parecia não notar a substituição das noivas.

SONOPLASTIA: VICENTE RIBEIRO

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